Ngungunhanha acordou nessa manhã bastante sobressaltado, ergueu-se vagarosamente da sua campa, pousou os pés no chão, colocou as mãos no queixo e assim permaneceu durante algum tempo, até que viu se aproximar um tal de Aleixo, o homem que estava encarregue de cuidar zelosamente da sua campa. Espreitou a poeira que lhe cobria o corpo, arrumou-se vagarosamente e ficou esperando que esse homem que lhe dedicava uma enorme afeição se fizesse perto. O branco chegou perto dele, gesticulou, tentando lhe dizer algo, nada, porém, saíu da sua boca. O antigo rei dos vátuas viu o rosto do coveiro encharcar-se de lágrimas enquanto abria com os dedos trémulos o jornal que trazia entre as mãos e leu a seguinte notícia: "O Imperador regressa a casa". Só isso! Depois sentou-se sobre a campa e desfez-se em prantos. Comovido, o antigo rei dos vátuas colocou-lhe as mãos nos ombros, incapaz naquele momento de inventar alguma palavra de consolo....
[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 3]