Rue Catinat

14.3.05

 

E, já agora, a propósito de uma notícia

Visão grandiosa: produzir história passada para forçá-la a modificar-se, a tornar-se outra! Na verdade, se os efeitos futuros resultam de causas antigas, alteradas essas causas teríamos efeitos diferentes! Precursor (ou díscipulo) de Pascal, o autor do Bosque, este ou aquele, terá pensado: vamos encurtar o nariz de Cleópatra ou (pois o passado histórico construímo-lo, interpretamo-lo nós) diremos que o nariz de Cleópatra era mais curto. E então nascerá uma nova história, um novo passado, um novo presente e um novo futuro, produtos de outras causas, de outros narizes. Ao contrário de Estaline que modificava o passado para legitimar o presente, o anotador do século XVIII modificara o passado para modificar o presente, para não o legitimar, para corrigi-lo.

Volto a repetir: assim procederam os monges de Alcobaça, quando forjaram as velhas cortes de Lamego. Ao tornarem-se reais, as cortes de Lamego produziram um novo futuro diferente daquele que existiu sem elas. E criando outro futuro, cimentaram a independência de Portugal com novos e dinâmicos argumentos.

Visão grandiosa, insisto, mas visão comum a todos os ideólogos, historiadores ou não, quando reconstruíram os factos passados. Afinal, eles não procuram legitimar o presente, procuram, sim, criar outro passado que pudesse condicionar de outra maneira o que depois veio (mas não veio) a acontecer.

[Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso, 127]

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