Rue Catinat

13.4.05

 
Não me tem sido possível gozar o suficiente este Rue Catinat. Leitor profissional e querendo separar blog e trabalho o fluxo tem sido reduzido e o a citar pouco interessante.

Assim o Rue Catinat encerra. Continuará como categoria do meu outro blog. A quem por aqui passou obrigado pela atenção. E boas leituras.

12.4.05

 
This is a working river. Hour after hour the radio-telephone is cackling on the tugs. "Calling Sun 17, take the Florian and go in with her. Calling Sun 16, has that little Spaniard moved yet? What's the matter with her?". Language, old river hands complain, has become politer on the river. Education, they say, is the curse of everything, and the bad-language joke ... has lost its anchorage.

[V.S. Pritchett, London Perceived, Penguin Books, 78]

 
London is a market, has always been a market, and it owes its character to the Thames...the Thames estuary is only a few minutes' flight or a four or five hours' sea crossing from the mouths of three great continental rivers - the Elbe, the Scheldt, and the Rhine; and, by the last two, the traditional route from Venice to Amsterdam, the richest seam in Europe, debouches in the North Sea. Opposite these rivers, placed at the crossing of the sea routes, the Thames turned London into a natural entrepôt, and centre for transshipment.

[V. S. Pritchett, London Perceived, Penguin Books, p. 74]

7.4.05

 
Dedicado ao Ideias Para Debate, agradecendo a instalação de uma ligação ao Rue Catinat:

"A racionalização da actividade comunitária não tem (...) por consequência uma universalização do conhecimento relativamente às condições e às relações dessa actividade, mas, o mais das vezes, conduz ao efeito oposto. O "selvagem" sabe infinitamente mais sobre as condições económicas e sociais da sua própria existência do que o "civilizado", no sentido corrente do termo, das suas."

[Max Weber, Ensaio Sobre a Teoria da Acção]

 
A principal ideia do poema é construir e destruir. Não há nada intermédio. Mecanismo é destruir. O dinheiro é claro que é destruir. Quando for cavada a última sepultura, terão de pagar ao coveiro. Se pudéssemos confiar na natureza não teríamos de temer. Ela sustentar-no-ia. A natureza é criadora. Rápida. Pródiga. Inspiradora. Dá forma às folhas. Faz rolar as águas da Terra. O homem é o chefe disto. Todas as criações são a sua herança legal. Não sabemos o que temos dentro de nós. Uma pessoa ou cria ou destrói. Não há neutralidade...

[Saul Bellow, Agarra o Dia, Fragmentos (tradução Bernardo Antunes Navarro)]

4.4.05

 
Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da crição, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água]

2.4.05

 
...a harmonia nas nossas famílias, e portanto na nossa sociedade, pressupõe que se distanciem os idênticos e se aproximem os diferentes. Ora, a lei tem tendência para denegar o papel do pai...

...Boris Cyrulnik faz notar como, pela atribuição de um abono de estudos aos jovens, o Estado curto-circuita o papel do pai, ocupa o lugar deste, desaloja-o do seu estatuto e sapa, portanto, a sua função separadora....

O Estado é cada vez mais requerido em suprimento do pai....Se a lei designava ... o pai como chefe de família, era para contrabalançar de algum modo a ordem biológica natural que outorga um privilégio exclusivo à mãe na relação com o filho. Hoje, os dois pais são chefes ao mesmo tempo, e um mais que o outro já que o pai não é pai se não for designado como tal pela mãe e se ele aceitar este lugar.

[Françoise Héritier, "Apresentação", O Incesto, Pergaminho]

 
Walter Benjamim sonhava publicar um livro inteiramente composto de citações. Pelo meu lado, falta-me a originalidade necessária para tanto.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Lisboa, Relógio d'Água]

 
Assim, também a Musa inspira ela própria e, através destes inspirados, forma-se uma cadeia, experimentando outros o entusiasmo. Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esse belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos...
Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui...Nos outros géneros cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos...

[Platão, Íon (tradução de Victor Jabouille)]

 
Na minha opinião, estas conversas acerca de poesia assemelham-se muito aos banquetes de pessoas medíocres e vulgares. Incapazes, pela sua ignorância, de fazer as despesas da conversa num banquete, com a sua voz e os seus discursos, encarecem as tocadoras de flauta, pagando por alto preço um voz estranha, a voz das flautas, por meio da qual conversam uns com os outros.

[Platão, Protágoras, tradução de A. Lobo Vilela]

30.3.05

 
"A cara do negro tem uma estranha expressão. Como a dos orangotangos, que possuem olhos muito humanos. O negro: uma água na face, é o seu olhar.
Os brancos parecem ter nos olhos um nó maior ou mais pequeno, segundo os indivíduos. Esse nó nunca se desfaz em olhar. É a marca do segredo, do fenómeno cerebral, da reflexão insolúvel em fisionomia."

[Henri Michaux, Equador]

28.3.05

 

Extrema Questão

A Criação dos Seres

O Espírito tinha, inicialmente, a forma de um homem e de uma mulher enlaçados.
Mais tarde, este ser, ou Eu, separou-se em dois, dando assim origem ao Marido e à Esposa.
Uniu-se a ela. A humanidade foi engendrada por esta união.
A Esposa perguntou-se:
"Porque razão ele se une a mim, tendo-me engendrado a partir dele? Vou esconder-me."
Ela transformou-se em vaca e ele transformou-se em touro.
Uniu-se de novo a ela. Assim foi produzido o gado.
Ela transformou-se sucessivamente em jumenta, cabra, ovelha, etc.
E foi assim que tudo o que tem a forma de par foi criado na terra, do homem até às formigas.

[Brihadaranyaka Upanishad, Rosa Do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, tradução de Manuel João Ramos]

 

Para além da História?

"O novo problema reside sempre naquilo em que não vemos uma saída imediata. Estamos sem saída porque os métodos existentes já não são adequados. Se um destes métodos servisse, seríamos capazes de solucionar o problema. Portanto quando nos encontramos mentalmente bloqueados apercebemo-nos de que estamos numa situação em que a história não pode simplesmente repetir-se.

Esta situação sem precedente é, de facto, extremamente estimulante porque, seja o que for que descubramos ... esta descoberta leva-nos muito para além de um passado conhecido. Assim a história de uma ideia não é, no fundo, essencial para nos revelar como se dão os fenómenos ... o único teste válido em física radica nas nossas experiências - a história é, fundamentalmente, irrelevante. (89)

A única ciência que não admite qualquer indagação histórica é, com certeza, a física. Costumamos dizer que nesta área científica há sobretudo leis. Eis aqui as leis actuais!, dizemos. Nunca nos detemos a perguntar a maneira como chegaram a ser formuladas ... supomos simplesmente que as leis existiram sempre nessa forma, sempre as mesmas leis...

Assim, pode ser, afinal de contas, que mesmo na física, estas leis não sejam idênticas ao longo do tempo e que haja, sim, um aspecto histórico ou evolucionário." (98)

[Richard P. Feynman, Uma Tarde Com o Sr. Feynman, Lisboa, Gradiva, 1991]

27.3.05

 
"As leis mecânicas que nos permitem prever os fenómenos do universo são muito simples...A Natureza, sabemo-lo, porém, é mais simples do que poderemos imaginá-la através da nossa lógica". (91-96)

"O que caracteriza os bons cientistas é que, façam o que fizerem, nunca estão completamente seguros de si próprios, em comparação com a maioria das outras pessoas. Vivem na e com a dúvida; podem pensar "talvez..." e agir mesmo com essa dúvida, muito embora saibam que tudo não passa de um "talvez". (121)

"Recordemos também a nossa tendência para tornarmos tudo muito mais complexo do que deveras é. Há dias lia ... uma passagem de Espinosa...O raciocínio era absolutamente infantil, mas encontrava-se revestido de um tal palavreado de atributos, de substâncias e de outras banalidades que ... desatámos a rir às gargalhadas. Bem, deve achar que estou a exagerar, rir-me de um filósofo da estatura de Espinosa! Mas acontece que Espinosa não tem realmente qualquer desculpa...Veja bem, pegue numa proposição de Espinosa; a seguir, transforme-a na proposição contrária e examine-a bem. Aposto que não pode dizer-me qual das duas é a correcta.

As pessoas deixam-se impressionar com Espinosa porque este filósofo teve a coragem de encarar as questões importantes. Mas para que serve esta coragem se não leva efectivamente a nada?" (114-115)

"[Os filósofos] Tiram proveito do facto de, provavelmente, não haver uma partícula fundamental última para nos exortarem a não irmos mais além. E ei-los, a seguir, a pontificarem: "O vosso pensamento não chega ao fundo das coisas, deixem-nos dar-lhes uma definição preliminar do mundo". Mas assim não pode ser! Estou decidido a explorar o mundo sem ter dele qualquer definição!" (115)

[Richard P. Feynman, Uma Tarde Com o Sr. Feynman, Lisboa, Gradiva, 1991]

 

Domingo: Tácito

"Arminius was in power. He was leader of the war-party - in disturbed times uncivilized communities trust and prefer leaders who take risks."

[Tacitus, "War with the Germans", The Annals of Imperial Rome]

23.3.05

 
"Serei sincero se disser que não faço ideia da reacção que irá despertar a técnica narrativa do autor de "Cães da Mesma Ninhada", a um público que em tempos admirou Aquilino Ribeiro. Não que Ascêncio de Freitas seja só isso - um descendente, em linha recta, do autor de "O Malhadinhas", desaguado em território africano. Há nele outros ingredientes - uma perfídia mansinha, um caminhar meticuloso, mansarrão, paciente, quase microscópico, um gozadíssimo apanhar do "pequeno português" falado nos subúrbios das cidades moçambicanas (e não só), uma fina captaçaõ do "tempo" africano, de "estar falando" que é ali um modo de viver... - que se não encontram obviamente em Aquilino.

...com Luandino Vieira, Luis Bernardo Honwana e, em certa medida, Manuel Rui, Ascêncio de Freitas ficará como um dos mais eloquentes testemunhos de uma certa realidade africana que profundamente viveu..."

[Eugénio Lisboa, "prefácio", Ascêncio de Freitas, Ontem Era a Madrugada, Bertrand, 1978]

 
"Nem se via nem se desvia. Quem ia imaginar um impecilho daqueles a querer pintar figura de gente? Não eu. Só de escasso juízo na cabeça se poderia alguém crer na obrigação de pensar no peso das palavras do zureta, espanta-pardais figurado em alardeador de valentias, mal-mijada quantia de homem, pesposta cara naquela hora e data em circunstância de se crer avantajado, rinchador de maus tinos, mas, enfim, no mostrado de si, sua aparência, um merdelhice. Nem isso."

[Ascêncio de Freitas, Ontem Era a Madrugada]

 
"É. Quem entra no pilão vira farinha."

[Ascêncio de Freitas, Ontem Era a Madrugada]

22.3.05

 
- Você tem o ar de um trapista. Exagera o princípio da gravidade que em Londres lhe incuti. O ar triste não pode ser de bom-tom; é um ar aborrecido que se deve ter. Se está triste é porque qualquer coisa lhe falta, qualquer coisa que não lhe saiu bem. É mostrar-se inferior. Se, ao contrário, estiver aborrecido, é porque aquilo que em vão tentou agradar-lhe é que é inferior. Compreenda, portanto, meu caro, como o engano é grave. (...)

recorde-se do grande princípio do nosso século: seja o contrário daquilo que esperam de si."

[Stendhal, O Vermelho e o Negro]

21.3.05

 

Dia da Poesia

Eu, Mamã, Sobrinho, Vovó e Poesia

Outro dia
mamã que estava chateada
com raiva na cabeça
me encontrou quando estava no quarto
- O que você está a fazer
quando eu disse já, vem comer?
- Ah?
- O que você está a fazer?
- Estou escrever, mamã.
- Escrever o quê?
- Escrever poema.
- Poema de o quê?
- Poema de você mamã.
- Para o quê?
- Para amor que você me dá mamã.
- Então é por causa de isso
que você nem num quer vir comer?
Está deixar comida ficar frio
é por causa de isso?
- Mamã; não é por causa de isso
mas é por causa de você
por causa de o que você tem no z'olhos
por causa de boniteza que está no teu coração
por causa do amor que você me dá
no ser que você tem mamã
- Hum!
Mamã parecia que duvidou
Me olhou; pegou no coração pelo peito
Me esfregou. Parecia que queria dar zâmu
E me disse depois com voz grande de altura
parecia querer rebentar
meu quarto onde estava escrever.
- Viva gente de poesia!
De poema que me escreve
- Viva; respondeu meu sobrinho
que estava perto junto com porta
que entrou e também disse
- Viva gente de poesia
de poema que me escreve
- Viva; respondeu meu vóvó
que estava fumar cigarro de fumo grosso
que levantou da cadeira de encostar
e disse também
- Viva gente de poesia
de poema que me escreve
- Viva; respondemos todos nós

[Bahassan Adamodjy, Mussodji]

20.3.05

 

Clics de domingo

Agradecendo:
Interessante japonesice;
belo poemário;
no reino das coincidências;
a religião;
minha absoluta saudade;
José Cardoso Pires e o Português;
o primeiro periódico português;
com efeito;

 
Feiticeiro: Agradeço os votos que me faz diante dos espíritos. Mas porque mandou chamar-me assim, com tanta urgência, Gatsi Lucere?

Mambo: Para que seja garantida a continuidade da extensão do meu domínio sobre alguns vassalos que contra mim se rebelam, solicito os préstimos da tua magia.

Feiticeiro: Sugere que faça cair sobre os seus inimigos os malefícios da minha arte?

Mambo: Não. O castigo que pretendo para esses traidores é outro. A esses lacaios que, empaturrados pelo tributo que me roubam, ousam sublevar-se contra o meu poder, quero uma morte bem sofrida: uma morte a ferro e fogo!

Feiticeiro: Mas como o posso ajudar nesse desejo?

Mambo: Preparando-em com extrema brevidade umas duas bilhas e meia de dore-re-simba.

(...)

Feiticeiro [em jeito de conclusão]: Em troca da vida, Gatsi Lucere! Da vida...Se obrigares aos mineiros a tomar esse doro, eles encontrarão a morte em menos de sete semanas.

Mambo: Isso é o que pesa menos na minha consciência, feiticeiro. Agora pesa-me o ouro que não terei se esses servos continuarem vivos depois desse tempo.

Feiticeiro: E, a julgar pela quantidade de doro que me pede, é extenso o número de mineiros que tenciona sacrificar.

Mambo: Todos os dias nasce capim novo para alimentar o gado.

(...)

[Aurélio Furdela, Gatsi Lucere]

 

Porque é fim de semana: Tácito

While these events were taking place at Rome, mutinity broke out in the regular army in Pannonia. There were no fresh motives for this, except that the change of emperors offered hopes of rioting with impunity and collecting the profits afforded by civil wars.

(...)

The night looked like ending in a disastrous criminal outbreak. But this was averted by a stroke of luck. Suddenly, in a clear sky, the light of the moon was seen to decline. The soldiers did not know why this was, and detected an omen to their own situation. The waning moon seemed to provide an analogy to their own efforts: sucess would only crown the measures they were adopting if the moon-goddess shone brightly again. To produce this result they made a clattering of brass instruments and blew blasts on every sort of trumpet. The light seemed stronger, and they were happy. Then it looked dimmer, and they were mounful. Finnaly clouds hid it from view altogether. Men's minds, once unbalanced, are ready to believe anything; and now they howled that heaven was sickened by their crimes, and endless hardships were in store for them.

[Tacitus, "Mutinity on the frontiers", The Annals of Imperial Rome]

18.3.05

 
Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
para pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

[Natália Correia]

- obrigado Fernando. A Rua é tua.

17.3.05

 
Os Etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz achatado,
Enquanto os Trácios afirmam que os seus têm olhos azuis e cabelo ruivo.
Porém, se os bois ou os cavalos ou leões tivessem mãos e pudessem desenhar
E fossem capazes de esculpir como os homens, então os cavalos poderiam desenhar os seus deuses
Como cavalos, e os bois como bois, e cada um esculpiria então
Corpos de deuses, cada qual, à sua própria imagem

Os deuses não nos revelaram, desde o início,
Todas as coisas; mas, no decorrer dos tempos,
Podemos aprender através da busca, e conhecer melhor as coisas...
Estas coisas são, imaginamos nós, a verdade.

Mas a verdade certa, nenhum homem a conhece
Nem virá a conhecer; nem a dos deuses
Nem a de todas as coisas de que falo.
E mesmo se, por acaso, pudesse dar voz
À verdade final, ele próprio não a conheceria:
Porque tudo não passa de uma intrincada teia de suposições.

[Xenófanes, em Karl Popper, O Mito do Contexto]

 
Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda a hora, a amizade precisa ter seus diques

[Chico Buarque, Budapeste]

15.3.05

 
Filipe Guerra no bloguismo.

 
Eu bem lhes explicava esta sensação de me abandonar, de embarcar no Outro, de tédio e bocejo, acompanhado pelo sentimento doloroso de perceber o Outro fazendo tudo aquilo de que eu me inibia. Ou estaria eu tão importante que era dois? Um máximo na vida da Nação e ambicionado por muita gente...A verdade é que me dilatava tanto, o inchaço era de tal forma evidente que só me satisfazia sendo dois, não aguentava tamanha pressão apenas na forma de um indivíduo, tinha de ser dois em corpo, senão rebentava o que em mim era desejo.

[Ruben A., O Outro Que Era Eu]

 
Desintegro-me. Custou-me sempre participar do colectivo. Apoquenta-me a minha narrativa, sobretudo pela veracidade mordaz de que se revestem todos os meus actos. Tento disfarçar com imagens. Puxo as sarjetas da alma, guindastro pelas roldanas do meu vaivém um peso de sentimentos misturados com banalidades do dia a dia. Não vou à praça fazer compras. Recuso-me terminantemente a tomar uma laranjada, ou um eléctrico. Deixo que as pessoas olhem para mim, de caras, com a minha imagem espantada, bem visível à vista desarmada. Mesmo na loja que na Baixa me queria vender um binóculo por tuta-e-meia, eu recusei em absoluto essa alavanca trancada no rosto. Fui sempre pelo que é natural, tanto em animais, como na cama. A memória recorda factos, é parte de uma história que se ensinava no século XIX e ainda hoje alegra os meninos do Liceu. Lembro futuros melhores, de fava-rica, camisas arregaçadas, terminações com o mesmo dinheiro de muitas sortes grandes, banhos em pelote, mulheres de tremer os alicerces, terramotos que correm cheios de saudade, prenhes de desejos, satisfações imberbes que nunca se cumprem. Arrepio-me, agora, já, sem saber bem porquê, uma viagem que sobe e desce pela espinha dorsal. Olho para mim. Uma radiografia perfeita, bem chapada. Tudo foge ao meu controle. Fico destituído de mim, como desmobilizado de uma guerra em que não tomei parte.

[Ruben A., O Outro Que Era Eu]

14.3.05

 

Só cito,

nem digo nada.

 

E, já agora, a propósito de uma notícia

Visão grandiosa: produzir história passada para forçá-la a modificar-se, a tornar-se outra! Na verdade, se os efeitos futuros resultam de causas antigas, alteradas essas causas teríamos efeitos diferentes! Precursor (ou díscipulo) de Pascal, o autor do Bosque, este ou aquele, terá pensado: vamos encurtar o nariz de Cleópatra ou (pois o passado histórico construímo-lo, interpretamo-lo nós) diremos que o nariz de Cleópatra era mais curto. E então nascerá uma nova história, um novo passado, um novo presente e um novo futuro, produtos de outras causas, de outros narizes. Ao contrário de Estaline que modificava o passado para legitimar o presente, o anotador do século XVIII modificara o passado para modificar o presente, para não o legitimar, para corrigi-lo.

Volto a repetir: assim procederam os monges de Alcobaça, quando forjaram as velhas cortes de Lamego. Ao tornarem-se reais, as cortes de Lamego produziram um novo futuro diferente daquele que existiu sem elas. E criando outro futuro, cimentaram a independência de Portugal com novos e dinâmicos argumentos.

Visão grandiosa, insisto, mas visão comum a todos os ideólogos, historiadores ou não, quando reconstruíram os factos passados. Afinal, eles não procuram legitimar o presente, procuram, sim, criar outro passado que pudesse condicionar de outra maneira o que depois veio (mas não veio) a acontecer.

[Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso, 127]

 

Afinal, e a propósito de uma conversa...

Ao fim e ao cabo, as pessoas que verdadeiramente admiro não precisam de obra, a maior parte dos escritores meus conhecidos parecem-me menos interessantes. Mas a obra assemelha-se a um fato de bom corte, impõe quem o veste, mesmo tratando-se de um imbecil. A obra é quase sempre o recurso de quem não se sabe revelar na sua nudez, de quem precisa de se fingir talentoso. Quem tem talento prescinde da obra, basta dizer uma palavra, basta fazer um gesto. Basta estar ali.

[Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso]

13.3.05

 

Este blog é um diário de leituras

Assim, e com tanto e tão actual Tácito recém-chegado, será de avisar os visitantes que, provavelmente, pouco mais haverá para citar nos próximos tempos do que trechos destas obras. Como este:

"The whole point of autocracy, Crispus observed, is that the accounts will not come right unless the ruler is their only auditor."

[Tacitus, The Annals of Imperial Rome, Penguin, 1996, 35]

 

Ir ao estrangeiro é poder comprar várias coisas que começam assim...

"I shall begin my work with the year in wich Servius Galba and Titus Vinius were consuls, the former for the second time. My choice of starting-point is determined by the fact that the preceding period of 820 years dating from the foundation of Rome has found many historians. So long as republican history was their theme, they wrote with equal eloquence of style and independence of outlook. But when the Battle of Actium had been fought and the interests of peace demanded the concentration of power in the hands of one man, this great line of classical historians came to an end. Truth, too, suffered in more ways than one.

To an understandable ignorance of policy, which now lay outside public control, was in due course added a passion for flattery, or else a hatred of autocrats. Thus neither school bottered about posterity, for the one was bitterly alienated and the other deeply commited...Adulation bears the ugly taint of subservience, but malice gives the false impression of being independent."

[Tacitus, The Histories, Penguin]

 

Ir ao estrangeiro é poder comprar coisas que começam assim...

"When Rome was first a city, its rulers were kings. Then Lucius Junius Brutus created the consulate and free Republican institutions in general. Dictatorships were assumed in emergencies. A Council of Ten did not last more than two years; and then there was a short-lived arrangement byh wich senior army officers - the commanders of contingents provided by the tribes -possessed consular authority. Subsequently Cinna and Sunna set up autocracies, but they too were brief. Soon Pompey and Crassus acquired predominant positions, but rapidly lost them to Caesar. Next, the military stenght wich Lepidus and Antony had built up was absorbed by Augustus. He found the whole state exhausted by internal dissensions, and established over it a personal régime known as Principate."

(Oito séculos de história verídica num parágrafo. Um monumento!)

"Famous writers have recorded Rome's early glories and disasters. The Augustan Age, too, had its distinguished historians. But then the rising tide of flattery exercised a deterrent efect. The reigns of Tiberius, Gaius, Claudius, and Nero were described during their lifetimes in fictitious terms, for fear of the consequences; whereas the accounts written after their deaths were influenced by still raging animosities. So I have decided to say a little about Augustus, with special attention to his last period, and then go on to the reign of Tiberius and what followed. I shall write without indignation or partisanship: in my case the costumary incentives to these are lacking"

(E metade do método num outro parágrafo. Outro monumento!)


[Tacitus, The Annals of Imperial Rome, Penguin]

12.3.05

 
Vénia.

11.3.05

 
Uma ligação que me é obrigatória.

10.3.05

 

Da Beleza da Primeira Vez?

"É booommm! É boommm!"...."Batata Doce é Booommm!"

[ela, ali no quintal, agora mesmo]

 

Continuando

Hoje
aromas chamanculos
politizam os fogões
da polana

("Primeiro aniversário", 1977)


Eh, todos aí
vamos deslobolar este país

("Discurso Novo da Mulher", 1978)


Cumprem regulosamente
a espia sobre as nossas aspirações
e chamam analfabetos
aos nossos gostos e opiniões

São redondamente regulosos
os régulos
do carimbo

(1978)


(Ao Miguéis [Lopes Junior?])

Os semi-utópicos que trazemos no peito
aqui no lado esquerdo do trump-trump da vida
e dos vulcões
Este arsenal de guerra parado
à espera
nos discursos da nossa vontade
apenas semidita
Mas olha
não dura muito o lobolo do compromisso
nas verdades intuídas pela paixão.

Eh! escravos do slogan,
respeito.
Há sangue nosso na estrada

(1977)

[Carlos Cardoso, Directo ao Assunto]

 

Blogofrase do ano (Já)

Escrever num blog dá pano para mangas para certezas absolutas.

9.3.05

 

"Acção afirmativa"

The 1930s rolled on in a kind of blissful calm before the storm. Hertzog´s "civilized labour" policy gave job preference to "civilized" whites instead of "uncivilized" blacks, absorbed large numbers of poor whites in the enlarged public sector, especially railways, and the economy moved slowly out of the doldrums. Life returned to normal and white South Africa was infused with a new spirit of unity and optimism.

[Alister Sparks, The Mind of South Africa]

 
The great danger of idealism lies in the fact that it turns men into fools...Through the extravagant, everyday invocation of the highest ideals, reality may perish

[Moeller Van Den Bruck, em Allister Sparks, The Mind of South Africa, 147]

 
Um belo texto sobre o amor: as nossas mulheres não são ícones.

 

Excelsa citação

O Mito da Mulher, de José Cardoso Pires. A fazer valer a pena a efeméride.

8.3.05

 
Mais Arquétipo.

 

Conversando comigo mesmo: a Etiópia em nós?

The university - then named Haile Selassie I University - was perhaps the most significant modernist institution in all of Ethiopia. The grand scheme of modernization - the march of advanced nations, followed by backward ones, along a continuum defined by different groups sucess in applying science and knowledge - had come to define reality for many of the new Ethiopian educated elite....

On the eve of the revolution in Ethiopia, there were two great world models of modernization, two mutually exclusive paths to wealth and power for underdeveloped countries, namely, capitalism and socialism. In the stories told by apologists for each, the same factors - the market on the one hand, and planning on the other - were alternately the very secret of progress or the most basic explanation of backwardness...

...in the heat of revolutionary struggle, modernist discourse quickly lost contact with qualifying reality, and its binary logic took on an unhindered life of its own...

...the zemecha students [universitários enviados para o mundo rural para estabelecer a nova ordem revolucionária] found not support but fierce opposition from peasants. Most of the students came ... not only with a superiority born of modern education but with the traditional contempt of Orthodox Christian believers for so-called pagans. The mixture of these sentiments made ... chiefs, who typically occupied religious as well as political roles, appear to the zemachs as especially egregious figures who oppressed their followers through superstitious beliefs...

"Student revolutionaries had their own vision of the new rural order...carrying Mao's Little Red Book, would lecture peasants on class struggle and the necessity for collective farming, while peasant association leaders kept asking where they would get the oxen urgently needed for plowing and when fertilizer would be delivered" (Marina, David Ottaway, Ethiopia, 12)...

The difficulty is that rural people typically live in different cultural worlds than urban revolutionaries, and, as James Scott argued..."The radical intelligentsia, at least initially, is often as culturally distant, if not more distant, from the peasantry thant the dominant elites whom they wish to replace"...

[ Donald L . Donham, Marxist Modern. An Ethnographic History of the Ethiopian Revolution, 25, 26, 33, 34, 36)

 

O Ajudante

Com os pés mornos na cabine recorto a lua
num vidro do camião em viagem
Para além da fixidez sem pálpebras
dos faróis europeus
um tambor desembainha das sombras
as aldeias

onde já chego como a ilhas habitáveis
a que subisse
vindo por rios de outrora
que espumavam dentro do meu sono nas esteiras

[Sebastião Alba, O Ritmo do Presságio]

 

Auto-citação

Há imensos blogs.

 

Arquétipo via ligação

Beleza Absoluta.

 

Livro

And when he brought the book and revealed the quotation on the printed page, Leela fell silent in pure wonder. For however much she complained and however much she reviled him, she never ceased to marvel at this husband of hers who read pages of print, chapters of print, why, whole big books; this husband who, awake in bed at nights, spoke, as though it were nothing, of one day writing a book of his own and having it printed!

[V.S. Naipaul, The Mystic Masseur]

 
In Trinidad it isn't polite to look down on a man because you know he handles public funds unwisely. As soon as he is exposed the poor man becomes ridiculous enough, a subject for calypso.

[V.S. Naipaul, The Mystic Masseur]

7.3.05

 

Apresentando em citação

Mais um blog de um amigo: o qual me está Na Distância.

 

Auto-citação [colectiva]

Pergunta o amigo (afamado bloguista), via email: "Olha lá, a tua Rue Catinat vai ser espaço de citação ou vem coisa tua também?"

Responde o amigo, via email: "não tenho nada a dizer que outros não tenham dito já".

 

Citando via hiperligação

Retrato Comunitário

 

e sobre o pensamento árabe

É que a história árabe não preocupa com o colmatar das lacunas nem com a resolução das inevitáveis contradições entre as fontes. Justapõe os episódios sem ligação, numa ordem cronológica rigorosa...Esta estrutura não resulta unicamente duma preguiça do compilador; releva de uma atitude filosófica largamente expandida entre os intelectuais muçulmanos, o atomismo ocasionalista que casava o pensamento de Epicuro com a concepção muçulmana de Deus, Vontade pura e arbitrária. “Segundo este sistema o mundo, constituído por um conjunto de átomos isolados, não dura nem subsiste senão pela vontade de Deus, único agente; não existem causas segundas, encadeamento causal, nem lei natural, mas unicamente hábitos"(D. Sourdel, L’Islam).

[Charles-Olivier Carbonell, Historiografia, 59]

 

sobre a China

(Um pequeno livrinho muito discutível, manualesco. Mas talvez ajudando o pensar)

"A explicação causal não é por conseguinte nem profunda nem extensa...Se durante dois mil anos a historiografia chinesa quase não ultrapassou o nível do discurso cronológico, analítico, foi porque o confucionismo tinha fixado os espíritos numa atitude exageradamente reverente para com as obras antigas, o Chu King e os Che Ki, por exemplo. Foi também porque os chineses não tiveram do tempo a mesma representação que os povos mediterrânicos. Ignoraram a cronologia contínua em que, a partir duma data originária, se podem medir as durações nos dois sentidos. Utilizaram uma cronologia compartimentada em pequenos receptáculos cada vez menores: período dinástico, reinado, nien hao (quatro anos e meio), ano, estação, etc. Com efeito os Chineses tiveram do tempo, como do espaço, uma visão concreta e analítica, filha duma escrita rebelde à abstracção...consequências de uma tal visão são nefastas: dificuldade de localizar exactamente no passado e portanto obstinação em fazê-lo, impossibilidade de estabelecer as ligações causais através de divisões cronométricas, rejeição de uma perspectiva linear em proveito de ciclos representativos...

Escrever a história não é nem conhecer veridicamente, nem compreender o passado; é pô-lo em ordem”

(Charles-Olivier Carbonell, Historiografia, 39)

6.3.05

 

The Canadians, Andrew Malcolm

"para muitos canadianos a sua identidade parece ser a de procurar eternamente a sua identidade, um empreendimento a la Sísifo, que lhe garante uma angústia para sempre".

[citado em Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

 

The Seven Cultures of Capitalism, Charles Hampden-Turner & Fons Trompenaars

"No nosso inquérito a 15 mil executivos descobrimos que a cultura de origem é o mais importante determinante de valores. Em cada cultura, uma estrutura profunda de crenças é a mão invisível que regula a actividade económica. As preferências, ou valores culturais, são o alicerce da identidade nacional e a fonte de forças ou fraquezas económicas"

[citados em Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico, 85]

 

Relativismo Cultural

(A minha avó) ...caracterizou-me melhor do que ninguém o relativismo cultural. Um dos netos ia dar um passo menos ortodoxo...Não estava direito, como se dizia no código moral familiar. Foi a avó quem trouxe a sentença sábia: "Deixem lá. Esta terra e estes tempos não são os nossos. E direito, como?...O direito do anzol é andar torto".

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

 
...ao tecer algumas considerações finais sobre a impossibilidade de se ser objectivo, apesar da importância de se procurar sê-lo o máximo possível, mencionei o caso específico dos jornalistas estrangeiros (e não os jornalistas em geral) que se encontram numa situação de "antropólogos com pressa".

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

 

A época do bacoco

Se a persistência do Barroco na nossa história nos marcou de tal modo o gosto, e se nesse estilo alguns dos nossos antepassados criaram belissimos exemplos... parece também ter deixado em não poucos portugueses um viés que privilegia a exuberância, a profusão e o espectáculo. Na arte, naturalmente.
Mas também nas palavras. Que muitas vezes servam para esconder ideias nada espectaculares.

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

 
...encontro repetida, e com frequência...a expressão de um receio: a Igreja é uma força ideológica, transmitirá os seus valores.
Ora, o que numa sociedade democrática deveria ser tomado como algo perfeitamente natural (possuir-se uma ideologia) e procurar-se divulgá-la (transmitir valores) aparece como qualquer coisa de vicioso.

No fundo o ideólogo é o outro. As incoerências são algo inerente aos sistemas de valores dos outros.

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico, 62]

5.3.05

 
...

nesse tempo ainda os meus pais eram da família
que depois perdi em anos consecutivos
e eu julgava-os imortais como deuses de luz clara
brilhando à mesa sobre a grande toalha de linho

...

[Fernando Assis Pacheco, "Elegia mandada por carta ao Tim", Respiração Assistida]

 
Lindiwa, porém, era uma mulher nova, o sangue corria-lhe impaciente nas veias, desejava ser amada, acordar todos os dias nos braços de alguém, como o capim debaixo da cacimba.

[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 64]

 
Ngungunhanha acordou nessa manhã bastante sobressaltado, ergueu-se vagarosamente da sua campa, pousou os pés no chão, colocou as mãos no queixo e assim permaneceu durante algum tempo, até que viu se aproximar um tal de Aleixo, o homem que estava encarregue de cuidar zelosamente da sua campa. Espreitou a poeira que lhe cobria o corpo, arrumou-se vagarosamente e ficou esperando que esse homem que lhe dedicava uma enorme afeição se fizesse perto. O branco chegou perto dele, gesticulou, tentando lhe dizer algo, nada, porém, saíu da sua boca. O antigo rei dos vátuas viu o rosto do coveiro encharcar-se de lágrimas enquanto abria com os dedos trémulos o jornal que trazia entre as mãos e leu a seguinte notícia: "O Imperador regressa a casa". Só isso! Depois sentou-se sobre a campa e desfez-se em prantos. Comovido, o antigo rei dos vátuas colocou-lhe as mãos nos ombros, incapaz naquele momento de inventar alguma palavra de consolo....

[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 3]

4.3.05

 

A beleza da primeira vez

Um obrigado à Xanel Cinco, pela primeira vez de uma ligação a este recém-blog.

 

Felicidade

A Madalena presenteou-nos com um pacote de verdadeira felicidade. Gozei-as durante duas noites. Paz, alegria, saudade, carinho, partilha. Vida, felicidade completa. E juventude: basta assim.

Não cresci assim tanto.

[hiperligações via Xanel Cinco]

 

Citando via hiperligações.

  • Poderosa inscrição
  • .
  • Outra poderosa inscrição
  • .

     
    The whole world knows about Lin-Piao. He gave us the idea of liquidating the class enemy. It was simple and exciting in the beginning and it seemed the way ahead. In India we also liked it because it came from China and we thought it put us right up there with the Chinese. In fact it destroyed the revolution. The Lin-Piao line turned the revolution into middle-class theatre. Young middle-class exhibitionists in the towns putting on peasant clothes and staining their skin with walnut juice and going out to join the gangs and thinking that revolution meant killing policemen. The police had no trouble in wiping them out. People in that kind of movement always underestimate the police, I don't know why. I suppose it's because they think a little too highly of themselves.

    [V. S. Naipaul, Magic Seeds]

     

    Roma

    Ora, as máximas de Roma são arcaicas; Roma encarna uma forma arcaica, não de imperialismo mas de isolacionismo. Nega a pluralidade das nações e comporta-se, dizia Mommsen, como se fosse o único Estado na plena acepção da palavra; não procura uma semi-segurança comum no dia-a-dia, em equilíbrio com outras cidades, mas quer viver tranquila, fazendo por encontrar de uma vez para sempre a segurança total e definitiva. Qual seria o culminar ideal de semelhante ambição? Este: conquistar todo o horizonte humano, até aos seus limites, até ao mar ou aos Bárbaros, para ficar enfim sozinha no mundo, quando tudo tiver sido conquistado.

    [Paul Veyne, O Inventário das Diferenças]

    3.3.05

     
    A vida vai torta
    Jamais se endireita
    O azar persegue
    Esconde-se à espreita

    [canção popular portuguesa]

     
    O ódio é uma viva contradição - não conhecendo fronteiras, ergue-as onde quer que chegue.

    [Álvaro Guerra, Crónicas Jugoslavas]

     

    falaste? turvaste a água!

    é morte de homem?
    a que cheira então?

    isso que fede é o cheiro da injúria, da afronta
    da escória da memória.

    falaste, soltaste a língua
    abriste a palavra aos outros:

    vem-te à boca agora
    o hálito alheio

    e respiras o sabor
    do que tinhas engolido.

    vai à lenha e volta
    a novidade espera.

    onde ir à água que a não deixes turva
    e aonde te vais mostrar
    que não te exponhas ao mundo?

    da rama estéril, quem fala?
    a inveja visa é lá, é onde tem.

    *

    hálito alheio:
    memória da escória

    [Ruy Duarte de Carvalho, Observação Directa]

     

    Mas agora que vai descer a noite na minha vida

    Triste de mim mais triste que a tristeza
    triste como a mão que segura o copo
    como a luz do farol esgaçando a névoa
    triste como cão manco
    deixado na serra pelos caçadores

    .....

    triste como uma puta alentejana
    num bar de Ourense
    que me viu à cerveja e lesta
    me chamou compadre
    vozes que a gente colecciona

    ...

    triste e já sem nenhum reparo
    a fazer à metafísica
    senão que é um défice
    porventura
    do córtex cerebral

    [Fernando Assis Pacheco, Respiração Assistida]

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